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Comentário Homilético — Mateus 2.13–15, 19–23 — Dia de São José



Apresentação Inicial

Caros pastores, pregadores, líderes de grupos semeadores e visitantes do luteranismobrasil.com,

A paz do Senhor Jesus Cristo, que exceda todo entendimento, guarde os vossos corações e mentes!

Neste 19 de março de 2026, a Igreja celebra o Dia de São José, Guardião de Nosso Senhor. Embora o calendário litúrgico luterano reserve um lugar modesto para as festas de santos, a tradição evangélica sempre reconheceu o valor de celebrar aquelas figuras bíblicas cujas vidas apontam, de maneira transparente, para Cristo e sua obra salvífica. José, o carpinteiro de Nazaré, é uma dessas figuras.

Na teologia luterana, não invocamos os santos como intercessores ou mediadores, pois "há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus" (1 Timóteo 2.5). No entanto, com o Apóstolo dos Gentios, exortamos: "Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo" (1 Coríntios 11.1). Os santos são, para nós, exemplos vivos da fé que justifica e da obediência que procede dessa fé. São José, em particular, destaca-se como modelo do pater familias cristão: homem justo, silencioso, obediente e fiel guardião do mistério da encarnação.

O material que ora apresentamos visa auxiliar na preparação da prédica e na compreensão das leituras deste dia, à luz da analogia da fé e da tradição confessional luterana. Que o Espírito Santo, que concedeu a José sabedoria para guardar o Menino, nos conceda sabedoria para guardar e proclamar fielmente a sua Palavra.


Contextualização das Leituras

As Leituras do Dia

2 Samuel 7.4, 8–16
O contexto é o ápice do reinado de Davi. Estabelecido em seu palácio de cedro e com a arca do Senhor instalada em Jerusalém, Davi concebe o piedoso desejo de construir uma "casa" (templo) para Deus. O profeta Natã, inicialmente, aprova o plano. Contudo, naquela mesma noite, a palavra do Senhor vem a Natã com uma reviravolta surpreendente: Deus recusa a oferta de Davi e, em vez disso, promete fazer-lhe uma "casa" — não de pedra, mas uma dinastia eterna. "O SENHOR te fará casa" (v. 11b). A promessa é messiânica: da descendência de Davi surgirá um Filho cujo trono será estabelecido para sempre, e Deus será para ele Pai, e ele será para Deus filho (vv. 12-14). O texto original hebraico utiliza o termo בַּיִת (bayit), que significa simultaneamente "casa" (edifício), "lar" (família) e "dinastia". O trocadilho teológico é fundamental: Davi queria dar uma casa a Deus; Deus promete dar uma casa eterna a Davi — uma casa que culminará em Jesus, o Filho de Davi por excelência.

Romanos 4.13–18
Paulo, no auge de seu argumento sobre a justificação pela fé, recorre a Abraão, o pai dos crentes. A promessa de que Abraão seria "herdeiro do mundo" não veio por meio da lei, mas sim διὰ δικαιοσύνης πίστεως (dia dikaiosynēs pisteōs), "por meio da justiça da fé" (v. 13). A lógica paulina é cristalina: se a herança dependesse da lei, a fé seria anulada e a promessa cancelada (v. 14). A lei, aliás, produz ira, pois revela a transgressão (v. 15). Por isso, a promessa é ἐκ πίστεως, ἵνα κατὰ χάριν (ek pisteōs, hina kata charin), "proveniente da fé, para que seja segundo a graça" (v. 16). Abraão creu "diante daquele em quem creu, o Deus que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem" (v. 17). Sua fé foi "esperando contra a esperança" (v. 18). A descendência de Abraão, portanto, não é definida por linhagem sanguínea ou observância da lei, mas pela fé no Deus que cumpre suas promessas.

Mateus 2.13–15, 19–23
O texto evangélico situa-se após a visita dos magos. José, repetidamente, é o receptor de revelações divinas em sonhos — um eco do José do Antigo Testamento, o sonhador (Gênesis 37). O anjo do Senhor ordena a fuga para o Egito para salvar o Menino da fúria de Herodes. A narrativa é econômica: José "levantou-se, de noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito" (v. 14). Não há objeções, perguntas ou demoras. Após a morte de Herodes, novo sonho ordena o retorno, e José novamente obedece, estabelecendo-se em Nazaré da Galileia. Mateus interpreta esses eventos à luz do Antigo Testamento: "Do Egito chamei o meu Filho" (Oséias 11.1) e "Ele será chamado Nazareno" (alusão a Isaías 11.1, onde "neser" significa "renovo").

Integração Litúrgica:

O dia 19 de março é uma festa do Senhor, não no sentido de celebrar um santo isoladamente, mas de celebrar a obra de Cristo através do instrumento que ele escolheu: José, o guardião. Na tradição luterana, como expressa no Livro de Concórdia, os santos são lembrados "para que sigamos sua fé e boas obras" (Apologia da Confissão de Augsburgo, XXI). A festa de José insere-se no contexto da Quaresma (em 2026, estamos próximos ao início deste tempo), mas possui um caráter próprio: é uma celebração da fidelidade divina manifestada na história humana.

Liturgicamente, este dia nos convida a refletir sobre a vocação dos pais e guardiões. Na confissão de pecados, somos lembrados de quantas vezes falhamos em proteger, guiar e nutrir aqueles que Deus confiou aos nossos cuidados. Na absolvição, recebemos o perdão que nos capacita a recomeçar, como José recomeçou no Egito. Na oração do dia, pedimos a graça de seguir o exemplo deste trabalhador fiel. E na Ceia do Senhor, somos alimentados pelo próprio Cristo que José guardou, o Pão da vida descido do céu.

Analogia da Fé

As três leituras formam um tríptico teológico sobre a fidelidade de Deus e a resposta da fé.

  1. 2 Samuel 7 estabelece a promessa: Deus fará uma casa (dinastia) a Davi. Esta promessa é unilateral, gratuita e eterna. Davi não merece; recebe. A promessa aponta para um Filho, descendente de Davi, cujo reino não terá fim.

  2. Romanos 4 explica a dinâmica da fé: Assim como Abraão creu na promessa de uma descendência quando seu corpo era já amortecido, assim também nós somos justificados pela fé na promessa cumprida em Cristo. A herança não vem pela lei (mérito), mas pela graça (dom).

  3. Mateus 2 mostra o cumprimento e a guarda da promessa: José, descendente de Davi (Mt 1.20), é o elo que conecta a promessa davídica ao seu cumprimento em Jesus. Sua obediência silenciosa e imediata preserva o Menino, o Filho de Davi, o Herdeiro do mundo, para que a promessa não seja frustrada. A fuga para o Egito e o retorno recapitulam a história de Israel: o Filho de Deus repete a trajetória do povo de Deus, mas agora para redimi-lo.

analogia da fé nos permite ver: Deus promete uma casa a Davi (AT); Paulo esclarece que esta promessa se recebe pela fé, como Abraão (Epístola); José, pela fé, guarda aquele que é a própria Casa e Templo de Deus (Evangelho).


Comentário Exegético e Teológico do Evangelho (Mateus 2.13–15, 19–23)

I. A Fuga para o Egito (vv. 13-15)

"Depois que os magos partiram, eis que um anjo do Senhor apareceu em sonho a José e disse: Levante-se, tome o menino e a sua mãe, fuja para o Egito e fique por lá até que eu avise você, porque Herodes vai procurar o menino para o matar." (v. 13)

Mateus emprega a expressão κατ' ὄναρ (kat' onar), "em sonho", que já havia usado em 1.20. No mundo greco-romano, sonhos eram frequentemente vistos com ceticismo, mas na tradição bíblica, especialmente em Mateus, o sonho é o meio pelo qual Deus revela sua vontade aos humildes e justos. José é apresentado como o verdadeiro filho de Jacó (José do Egito), que também recebia revelações divinas em sonhos e salvou sua família da fome .

O anjo ordena: ἐγερθεὶς παράλαβε τὸ παιδίον καὶ τὴν μητέρα αὐτοῦ (egertheis paralabe to paidion kai tēn mētera autou), "Levantando-te, toma o menino e sua mãe". A ênfase está na ação imediata. O verbo παραλαμβάνω (paralambanō) significa "receber ao seu lado", "tomar consigo". José não é apenas um guardião legal; ele é aquele que acolhe, que toma para si a responsabilidade.

Teologicamente, este versículo é uma poderosa declaração da teologia da cruz. O Filho de Deus, o Herdeiro de todas as coisas, é um bebê indefeso, ameaçado por um rei terreno. A salvação não vem com poder militar ou esplendor político, mas na fragilidade de uma criança que precisa fugir para sobreviver. Deus não age apesar da fragilidade humana, mas através dela. O Egito, lugar de escravidão na memória de Israel, torna-se lugar de refúgio para o Salvador — uma ironia divina que subverte a história.

"Ele se levantou, de noite, tomou o menino e a sua mãe e partiu para o Egito." (v. 14)

A resposta de José é o modelo do discipulado autêntico. Os verbos são todos de ação: levantou-se, tomou, partiu. Não há hesitação. Lutero, em seu comentário sobre o Magnificat, observa que a fé verdadeira não discute com Deus, mas age na certeza de que a palavra de Deus é verdadeira, ainda que as circunstâncias pareçam contradizê-la. José age "de noite" — na escuridão da incerteza humana, ele caminha pela luz da palavra divina.

"E ali ficou até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta: Do Egito chamei o meu Filho." (v. 15)

A citação de Oséias 11.1 é um exemplo clássico do método midráshico de Mateus. No contexto original, o profeta recorda o Êxodo: "Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho". O "filho" ali é o povo de Israel. Mateus, sob inspiração, vê em Jesus o verdadeiro Israel, o Filho perfeito que recapitula a história de seu povo. O que Israel foi de forma imperfeita e desobediente, Jesus o é de forma perfeita e obediente. Ele desce ao Egito e sobe de lá para cumprir, em si mesmo, a vocação de ser o Filho amado do Pai. Aqui encontramos a troca feliz em germe: Cristo assume a história de seu povo, com suas dores e exílios, para redimi-la desde dentro.

II. O Retorno e a Fixação em Nazaré

"Mas, tendo morrido Herodes, eis que um anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, dizendo: Levante-se, tome o menino e a sua mãe e vá para a terra de Israel, porque já morreram os que atentavam contra a vida do menino." (vv. 19-20)

O ciclo se repete. A morte de Herodes, o tirano, marca o fim do perigo imediato. A frase "já morreram os que atentavam contra a vida do menino" ecoa Êxodo 4.19, quando o Senhor diz a Moisés: "Vai, volta para o Egito, porque já morreram todos os que te procuravam para matar-te". O paralelo com Moisés é deliberado: Jesus é o novo Moisés, o libertador definitivo, que conduzirá seu povo da escravidão do pecado para a liberdade dos filhos de Deus.

"Então ele se levantou, tomou o menino e a sua mãe e foi para a terra de Israel." (v. 21)

Novamente, a obediência imediata. José não pergunta: "Por que agora?" ou "Para onde exatamente?". Ele simplesmente obedece. Esta é a essência da vocação do cristão: não a compreensão plena dos desígnios divinos, mas a confiança inabalável em quem os desígnios.

"Porém, quando ouviu que Arquelau reinava na Judeia em lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. E, avisado por divina revelação em sonho, retirou-se para a região da Galileia. E foi habitar numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que foi dito por meio dos profetas: Ele será chamado Nazareno." (vv. 22-23)

O "medo" de José não é falta de fé, mas prudência iluminada pela fé. Ele não age temerariamente, mas busca novamente a direção divina. Deus o guia para a Galileia, uma região desprezada pelos judeus ortodoxos (João 1.46). Mais uma vez, a lógica divina subverte a humana: o Rei dos reis não será criado em Jerusalém, nos círculos do poder, mas na insignificante Nazaré.

A expressão "Ele será chamado Nazareno" não é uma citação direta de um único profeta, mas um resumo de várias profecias. Muitos estudiosos veem aqui uma alusão a Isaías 11.1: "Do tronco de Jessé sairá um rebento (נֵצֶרnētser), e das suas raízes, um renovo frutificará". O "Renovo" messiânico seria, por um jogo de palavras, o "Nazareno". Jesus, o Rebento humilde da árvore cortada de Davi, é o cumprimento de todas as esperanças messiânicas. Ele não vem com pompa, mas como broto frágil — e é justamente assim que ele salva.

Lei e Evangelho no Texto

Lei se manifesta na figura de Herodes: o pecado humano em sua forma mais brutal — o orgulho, o medo de perder o poder, a violência contra os inocentes. A Lei também se manifesta na exigência de obediência a José: ele precisa agir, e agir rápido. Mas, na tradição luterana, a Lei sempre condena. Se José dependesse de seu próprio mérito para salvar o Menino, estaria perdido.

Evangelho, porém, brilha em cada página. É Deus quem age: é Deus quem envia o anjo, quem guia os passos, quem protege o Filho. José é apenas o instrumento. A salvação não vem do que José faz, mas do que Deus faz através de José. A "casa" que José guarda não é sua; é a casa de Deus. O Menino não é seu filho por natureza, mas por adoção — e é exatamente esta adoção que nos salva, pois Cristo, o Filho por natureza, nos adota como filhos pela graça.


Analogia da Fé

A Promessa a Davi e o Guardião Davídico

Em 2 Samuel 7, Deus promete a Davi: "Suscitarei depois de ti um descendente que virá do teu corpo, e estabelecerei o seu reino... Eu lhe serei Pai, e ele me será filho" (vv. 12, 14). Séculos depois, José, "filho de Davi" (Mt 1.20), é o elo que conecta a promessa ao seu cumprimento. Ao dar a Jesus o nome e a linhagem de Davi, José insere o Filho de Deus na história da promessa. Mas José não é o pai biológico; ele é o guardião adotivo. Isto nos ensina que a verdadeira filiação de Jesus não vem de sangue ou vontade humana, mas de Deus. A promessa a Davi cumpre-se não por geração natural, mas por intervenção divina — exatamente como Paulo argumenta em Romanos.

A Fé de Abraão e a Fé de José

Em Romanos 4, Paulo exalta a fé de Abraão, que "esperou contra a esperança". Abraão creu que seria pai de muitas nações quando seu corpo era já amortecido. José também é chamado a crer contra a esperança. Ele crê que o filho de sua esposa, concebido pelo Espírito Santo, é o Messias prometido. Ele crê que fugir para o Egito é salvação, não exílio. Ele crê que retornar a Nazaré, a cidade desprezada, é cumprimento profético. Assim como Abraão, José é justificado não por suas obras, mas por sua fé — uma fé que se traduz em obediência imediata.

A expressão de Paulo sobre Deus "que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem" (Rm 4.17) encontra eco no ventre estéril de Maria? Não, mas encontra eco na situação aparentemente sem esperança de um bebê ameaçado por um rei tirano. Deus chama à existência a salvação onde só havia ameaça de morte.

O Salmo 127: A Casa que Deus Edifica

Salmo 127 (cantado como salmo responsorial do dia) é a chave hermenêutica para todas as leituras:

"Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela" (Sl 127.1).

Davi quis edificar uma casa para Deus; Deus edificou uma casa para Davi. José trabalhou, vigiou, guardou — mas se o Senhor não guardasse a cidade (e o Menino), em vão vigiaria José. A edificação da casa de Davi, a proteção do Menino Jesus, a descendência de Abraão — tudo é obra de Deus. Nós, como José, somos chamados a participar desta obra não como protagonistas, mas como servos obedientes que "recebem o pão enquanto dormem" (Sl 127.2), isto é, que confiam na providência divina.


Aplicações Pastorais, Missionárias e Litúrgicas

Para a Prédica Dominical

Estrutura homilética sugerida:

  1. Introdução: O silêncio eloquente de José. Apresentar José como figura frequentemente esquecida, mas essencial na história da salvação.

  2. Ponto 1 — O Deus que promete: A partir de 2 Samuel 7, mostrar que a iniciativa é sempre de Deus. Ele promete uma casa eterna. Nossa salvação não começa conosco, mas com a promessa divina.

  3. Ponto 2 — A fé que recebe: A partir de Romanos 4, explicar que a promessa se recebe pela fé, como Abraão e como José. Não é por mérito (lei), mas por graça.

  4. Ponto 3 — A obediência que guarda: A partir de Mateus 2, destacar a obediência imediata de José. Ele não entende tudo, mas confia. Esta é a vida do cristão: não a compreensão plena, mas a confiança inabalável.

  5. Conclusão: Cristo, o Filho guardado por José, é agora o nosso Guardião. Ele nos guarda para a vida eterna. A exemplo de José, somos chamados a guardar a fé que nos foi dada e a proteger os vulneráveis que Deus colocou sob nossos cuidados.

Ênfases teológicas:

  • Centralidade de Cristo: José é importante não por si mesmo, mas por aquele que guarda.

  • Lei e Evangelho: A Lei condena nossa negligência como guardiães; o Evangelho anuncia que Cristo nos guarda.

  • Vocação: José nos ensina que toda vocência (paternidade, maternidade, ministério) é serviço a Cristo.

Para a Celebração Litúrgica

Confissão de Pecados: A liturgia de abertura pode ecoar o tema da guarda fiel. Podemos confessar que, ao contrário de José, muitas vezes dormimos quando deveríamos vigiar, fugimos quando deveríamos resistir, e resistimos quando deveríamos obedecer.

Oração do Dia: A coleta própria (fornecida abaixo) deve ser utilizada, ligando a memória de José à nossa súplica por fé obediente.

Prefácio: Se houver prefácio próprio para São José, ele deve destacar que José, "homem justo", foi constituído guardião do mistério da encarnação. A justiça de José não era a da lei, mas a da fé — a mesma justiça que nos é imputada em Cristo.

Ceia do Senhor: Na Ceia, somos alimentados pelo verdadeiro Pão do céu, aquele que José guardou em sua juventude. A mesma criança indefesa que fugiu para o Egito agora se dá a nós como alimento de imortalidade. A fragilidade do Menino transforma-se na glória do Senhor ressuscitado.

Para Grupos Semeadores (Plantação de Igrejas)

Identidade teológica e litúrgica:

O exemplo de José é paradigmático para comunidades em formação:

  1. Dependência total de Deus: Assim como José dependia das revelações divinas, o grupo semeador depende inteiramente da Palavra. O sucesso da plantação não vem de estratégias humanas, mas da bênção do Senhor (Sl 127.1).

  2. Obediência imediata: Grupos semeadores precisam cultivar a prontidão para seguir a direção de Deus, mesmo quando ela parece levar ao "Egito" — lugares inóspitos ou desafiadores.

  3. Centralidade de Cristo: José sempre leva "o menino e sua mãe". A comunidade nascente deve ter Cristo como centro absoluto. Tudo o mais — liturgia, ensino, comunhão — deve orbitar em torno dele.

  4. Paciência e discrição: José esperou no Egito até a morte de Herodes. Plantadores de igrejas precisam aprender a esperar o tempo de Deus, sem forçar colheitas antes do tempo.

Perguntas para discussão:

  • Em que áreas de nossa comunidade estamos "edificando sem o Senhor"? (Sl 127.1)

  • Como podemos imitar a obediência imediata de José em nossos desafios missionários?

  • De que forma protegemos e guardamos os "pequeninos" que Deus nos confia?

Estrutura de culto simples:

  • Acolhida e invocação trinitária

  • Confissão de pecados (baseada em nossa falha em guardar a fé)

  • Absolvição

  • Leitura das lições (2 Samuel 7; Romanos 4; Mateus 2)

  • Cântico ou salmo (Salmo 127)

  • Prédica (seguindo a estrutura sugerida)

  • Confissão de fé (Creio Apostólico)

  • Oração do dia e intercessões

  • Ceia do Senhor (se possível) ou encerramento com bênção

Para o Cuidado Pastoral

O texto oferece consolo e direção para diversas situações:

  1. Para os que sofrem perseguição ou ameaça: A fuga de Jesus para o Egito ensina que Deus não está ausente nos momentos de perigo. Pelo contrário, ele guia seus filhos para lugares de refúgio. O pastor pode assegurar aos perseguidos que Deus vê, Deus guia, Deus protege — ainda que nem sempre como esperamos.

  2. Para os que enfrentam decisões difíceis: José recebeu orientação divina em sonhos. Hoje, Deus nos orienta por sua Palavra. O pastor pode encorajar os aflitos a buscar na Escritura a direção para suas vidas, confiando que o mesmo Deus que guiou José guiará seus filhos.

  3. Para os pais e educadores: José é modelo de paternidade responsável. Ele não apenas gerou (ou adotou), mas cuidou, protegeu, ensinou. O pastor pode usar este texto para exortar pais e mães à sua vocação divina de guardiões da fé doméstica.

  4. Para os que se sentem insignificantes: Nazaré era desprezada, José era um carpinteiro anônimo. Deus age através dos pequenos e humildes. Nenhum serviço fiel é insignificante aos olhos de Deus.


Glossário Exegético

Termo OriginalTransliteraçãoSignificadoOcorrência
בַּיִת (hebraico)bayitCasa, lar, dinastia, templo2 Samuel 7.11, 13, 16
נֵצֶר (hebraico)nētserRenovo, rebentoIsaías 11.1 (alusão em Mt 2.23)
κατ' ὄναρ (grego)kat' onarEm sonho (literalmente, "segundo um sonho")Mateus 2.13, 19
ἐγερθείς (grego)egertheisTendo sido levantado, levantando-se (aoristo passivo)Mateus 2.14, 21
παραλαμβάνω (grego)paralambanōTomar consigo, receber ao ladoMateus 2.13, 14, 20, 21
τὸ παιδίον (grego)to paidionO menino, a criancinha (diminutivo afetivo)Mateus 2.13, 14, 20, 21
δικαιοσύνη πίστεως (grego)dikaiosynē pisteōsJustiça da fé, justificação pela féRomanos 4.13
ἐκ πίστεως, ἵνα κατὰ χάριν (grego)ek pisteōs, hina kata charinProveniente da fé, para que seja segundo a graçaRomanos 4.16

Recursos Litúrgicos

Oração de Coleta (Sugestão)

Seguindo a estrutura clássica da coleta luterana: Invocação, Relativa, Petição, Mérito de Cristo, Conclusão Trinitária.

Deus Todo-poderoso e eterno,
que da família de teu servo Davi fizeste nascer José
para ser o guardião fiel de teu Filho encarnado
e esposo castíssimo de sua mãe, Maria:

Concede-nos, por tua graça,
que, seguindo o exemplo de sua fé obediente e serviço humilde,
sejamos também fiéis guardiões do mistério de Cristo
e, ao fim, sejamos recebidos na casa eterna que prometeste aos teus santos.

Por Jesus Cristo, teu Filho e nosso Senhor,
que vive e reina contigo, na unidade do Espírito Santo,
um só Deus, agora e sempre. Amém.

Confissão de Pecados (Sugestão)

Inspirada na falha humana em guardar a fé e os dons de Deus.

Pastor: Irmãos, confessemos os nossos pecados diante de Deus e de toda a Igreja.

Povo: Deus de misericórdia,
confessamos que não temos sido guardiães fiéis dos dons que nos confiaste.
Muitas vezes, como Herodes, buscamos preservar nosso poder à custa dos inocentes.
Outras vezes, como os que dormiam enquanto o perigo rondava,
negligenciamos a vigilância e permitimos que o mal prosperasse.
Não protegemos os pequeninos como José protegeu o Menino.
Não obedecemos com a prontidão com que ele tomou sua família e partiu.
Perdoa-nos, Senhor, pela nossa infidelidade.
Livra-nos da tirania do medo e da paralisia da dúvida.
Por amor de Jesus Cristo, que foi guardado por José para ser o nosso Salvador,
tem misericórdia de nós e concede-nos o perdão de todos os nossos pecados. Amém.

Pastor: (Absolvição) Deus, nosso Pai, que em Cristo nos acolhe como filhos, pela autoridade que ele nos confiou, eu anuncio a todos vós a graça de Deus: Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, os vossos pecados são perdoados. Amém.


Conclusão

Neste Dia de São José, somos convidados a contemplar o mistério da encarnação não apenas do ângulo de Maria ou do Menino, mas também da perspectiva daquele que, no silêncio e na obediência, guardou o Salvador para o mundo.

José não foi profeta, não pregou sermões, não realizou milagres. Mas foi justo — aquele cuja vida está ajustada à vontade de Deus. Sua justiça não era a da lei, mas a da fé. Ele creu na palavra do anjo, creu que o filho de Maria era o Filho de Deus, creu que o Egito poderia ser lugar de bênção, creu que Nazaré escondia o Rei do universo.

Que o Senhor nos conceda, pela ação do Espírito Santo, a mesma fé obediente de José. Que, como ele, saibamos ouvir a voz de Deus em meio aos ruídos do mundo. Que, como ele, tomemos conosco o Menino e sua mãe — isto é, que acolhamos Cristo e sua Igreja em nossas vidas. E que, como ele, guardemos fielmente o depósito da fé até o dia em que, já não em sonhos, mas face a face, veremos a glória daquele que José guardou nos braços e nós guardamos no coração.

Ele será chamado Nazareno. O Renovo humilde, o Servo sofredor, o Rei da glória. A ele, com o Pai e o Espírito, seja todo louvor, honra e glória, agora e sempre. Amém.

Soli Deo Gloria

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