O Batismo de Jesus no Rio Jordão não pode ser lido como um gesto isolado de piedade pessoal, nem como um simples rito de passagem para o início do seu ministério. Ali está condensado o modo como Deus escolhe agir no mundo. Jesus não começa sua missão nos palácios, nem nos centros religiosos estabelecidos, mas no deserto, ao lado de gente ferida, marcada pela culpa, pela exclusão e pela espera de redenção. Ele entra na fila dos que confessam pecados, não porque os tenha, mas porque decidiu estar exatamente onde o povo está.
Quando Jesus pede a João que o batize para cumprir toda a justiça, Ele está dizendo que a justiça de Deus não acontece à distância. Ela se cumpre quando o Filho assume o lugar do pecador. A justiça não é um ajuste moral, nem uma recompensa por bom comportamento. É substituição. É o justo tomando sobre si a injustiça alheia. Ao descer às águas, Jesus antecipa o caminho da cruz. O Jordão já aponta para o Calvário. O que acontece ali é o início visível do feliz intercâmbio, onde Cristo toma o que é nosso e nos entrega o que é dele.
Essa descida de Jesus às águas dá um novo significado à própria criação. A água, elemento básico da vida, tão presente no cotidiano de quem depende da terra, da chuva e do trabalho diário, torna-se lugar da ação salvadora de Deus. Cristo não despreza o mundo material. Ele o assume. Ao tocar a água com seu corpo encarnado, Ele a santifica. Não é Ele quem precisa ser purificado. É a criação que é visitada, curada e reintegrada ao propósito de Deus. A água comum se torna portadora da promessa, não por magia, mas porque Deus decidiu se ligar a ela por sua Palavra.
No Batismo de Jesus, o céu se abre. Isso não é detalhe narrativo. É anúncio teológico. O céu não se abre porque a humanidade finalmente acertou. Ele se abre porque o Filho obedece até o fim. A voz do Pai declara amor e aprovação antes de qualquer milagre, antes de qualquer pregação, antes de qualquer vitória visível. Isso muda completamente a lógica religiosa que tenta condicionar o amor de Deus ao desempenho humano. Aqui, o amor vem primeiro. A promessa vem antes da obra. A identidade precede a missão.
Essa cena também revela que o Batismo não é obra humana, nem expressão pública de uma decisão pessoal. Ele é ação do Deus trino. O Pai fala, o Filho está presente, o Espírito desce. O Batismo cristão nasce desse movimento de Deus em direção ao ser humano. Por isso ele é consolo para quem vive esmagado por cobranças, culpas e exigências religiosas. O Batismo não aponta para dentro de nós, mas para fora, para aquilo que Deus fez e prometeu.
Quando a Igreja batiza, ela não repete um símbolo vazio. Ela participa dessa mesma realidade inaugurada no Jordão. Cristo entrou na água uma vez por todas, e sua promessa se estende a cada pia batismal, a cada comunidade simples, a cada pessoa que muitas vezes só tem a fé misturada com medo, cansaço e esperança frágil.
O valor do Batismo não está na emoção do momento, nem na compreensão plena de quem o recebe. Está na fidelidade de Deus que age mesmo quando a vida parece desmentir suas promessas.
Lutero compreendeu isso com clareza pastoral. Por isso ele ligou o Batismo diretamente à cruz. A água batismal carrega o peso da morte de Cristo e, ao mesmo tempo, a força da sua ressurreição. O velho ser humano, marcado por pecado, violência e autossuficiência, é diariamente afogado. Um novo ser humano surge, não idealizado, não triunfalista, mas sustentado pela promessa. Essa compreensão impede tanto o desespero quanto a soberba. O cristão não se acha melhor que os outros, mas também não se vê abandonado por Deus.
O Batismo de Jesus, portanto, redefine a forma de viver a fé no cotidiano. Ele nos lembra que Deus escolhe estar onde a vida é dura, onde a esperança parece pouca, onde as pessoas seguem carregando fardos que não escolheram. A certeza cristã não nasce da estabilidade da vida, nem da ordem social, nem do sucesso religioso. Ela nasce do fato de que Cristo entrou na água, tomou nosso lugar e abriu o céu.
Por isso, quando tudo parece instável, quando a fé vacila e a realidade pesa, o cristão não é chamado a olhar para dentro de si em busca de sinais de espiritualidade. Ele é chamado a lembrar. Fui batizado. Cristo entrou no Jordão por mim. O céu se abriu sobre Ele, e permanece aberto. Essa é a justiça que nos sustenta. Essa é a fé que nos mantém de pé.
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